Caderno Proibido
O conjunto de textos publicados em jornal de Roma, por Alba de Céspedes, foram reunidos em 1952, e publicados em forma do livro “Caderno Proibido”, considerado um Romance. Nele, Valéria Cossati, a personagem central, resolve escrever num caderno, como num diário, seus pensamentos e sentimentos, suas sensações e emoções, angústias e frustrações, sentimentos que ela mesma não reconhecia como seus.
E como uma escrita de um diário, a narrativa deste romance tem esse estilo, intimista, reflexivo, através dos quais conhecemos a dona de casa dos fins da década de 40 na Itália do pós-guerra, não só se confrontando com suas contradições, como descobrindo todo o conflito com os valores morais da época que, até então, lhe pareciam incontestes. De maneira sutil, faz uma profunda análise da sociedade da época, e uma crítica dos valores que a mantém, a ela e as mulheres, sob uma submissão de gênero até então não debatida. Revela-se, portanto, uma precursora dos debates e movimentos sobre a posição da mulher, não necessariamente feminista.
Ler esse romance, é como sentir-se na posição do confessor, que ouve as dúvidas, os auto-julgamentos, os mea culpa, os desabafos, as insatisfações com o casamento e a maternidade, que lhe pareciam até então corretos, normais, e positivos em contraste com a opressão-patriarcado, submissão feminina e dominância masculina...
Nem é um romance como aqueles com situações empolgantes, com surpresas, expectativas...
É melancólico. Como a condição feminina.
Comentários
Appio Ribeiro
14/03/2025 - 12:03
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Caderno Proibido
No curso de História, um alerta que sempre faziam era nunca olhar o passado com os olhos do presente. E a freqüência da recomendação se fazia pela tendência, natural para esse erro, e a freqüência com que ele ocorria. Aprendi a lição, acho. E percebi que isso era mais fácil de praticar quando os fatos narrados eram de tempos passados, longínquos, tempos que não vivi. E se buscava saber os valores sociais daquele tempo e daquele lugar, e identificar a estética predominante da época. Era um exercício acadêmico, que acabou virando uma prática.
Entretanto, ao ler este Caderno Proibido, ocorreu uma sensação interessante. Embora em um País diferente, e numa época diferente da atual, como eu nasci antes da publicação do livro, eu vivi naqueles tempos. Portanto, vivi na minha própria família os mesmos valores sociais, e assim me sinto como “testemunha ocular da História" como dizia o “Repórter Esso”, na voz do locutor Dalmácio Jordão, de quem fui colega de trabalho.
Mas, como eu vivo no mundo de hoje, em que aqueles valores sociais do romance já não estão mais no presente, crio compartilhar o que a personagem experimentava.
Então me senti contraditório, ora entendendo que aquele mundo era o passado, mas ao mesmo tempo era o mundo “presente”, aquele em que vivi.
Feito esse prólogo, muito pessoal, o livro Caderno Proibido, da Alba de Céspedes me surpreendeu tanto no aspecto da forma (quem nos conta a história é um “diário”, escrito pela da personagem central), quanto no conteúdo, ao retratar situações vividas e emoções sentidas de uma pessoa que, ao mesmo tempo em que reporta os padrões ético-morais da sociedade daquele tempo, ela os critica – indireta e sutilmente.
E como é um diário, ele é intimo, e como tal, trata dos sentimentos pessoais de Valéria - a personagem central: seus desejos, frustrações, expectativas, interpretações, repressões, resignação, enfim, o universo que constitui a identidade daquela mulher diante do casamento, da maternidade, do seu papel e da sua possível liberdade.
Parece que, ao escrever o diário, ela faz uma auto-análise, buscando se auto-conhecer. Mas isso a atemoriza.
As páginas desse Caderno estão repletas de angustias, incertezas, inseguranças, incoerências, temores, incompreensões – o universo das emoções de uma mulher madura no inicio dos anos 50, na Europa do pós guerra. Interessante como Valéria, ao se auto-analisar, ela analisa a sociedade que agora está vivendo, através do comportamento de seus filhos adultos, em contraste com áqüea sociedade em que nasceu e cresceu.
Publicado no início dos anos cinqüenta, parece que antecipou todo o conjunto de elementos que levaram aos movimentos femininos que conduziram ao papel da mulher na contemporaneidade.
Como o ritmo do livro é lento, e a narrativa muito introspectiva, muita vez a leitura é cansativa e não existe muita ação nem surpresas. A personagem principal não é a heroína dinâmica e vitoriosa dos padrões atuais. Mas é melancólica e sem esperança.
Mesmo assim, vale a pena!