
1º lugar na Categoria Poema
Prêmio Concurso de Literatura da
ACESC – Associação dos Clubes Esportivos e Sociais de São Paulo.
Al-Gaza-Rral-Gaza-Rra
No primeiro riscado ela sorriu para o céu,
Pensando que a cidade festejava algo.
Lindas luzes bordavam o escuro
tal qual festas distantes sobre o mar.
Seu irmão disse: “parecem estrelas caindo”.
Infância acredita primeiro na beleza antes do medo.
As janelas tremiam levemente,
como copos tocados por dedos invisíveis.
Ao longe, um clarão vermelho
abriu a noite como papel queimado.
Fogos para algum casamento,
Fogos para festa de seu aniversário próximo,
Então veio soando sibilado surgindo sucessivo
Não o estampido alegre das festas,
mas um feroz rugido metálico,
pesado como um céu desabando denso.
Os pássaros fugiram primeiro.
Depois os cães, as almas,
Depois os homens correram
carregando corpos de crianças nos braços.
A mãe apagou as luzes da casa
como quem tenta esconder o fôlego.
O pai encostou na parede a abraçando
escutando aviões invisíveis.
A menina ainda queria entender
Por que fogos faziam adultos chorarem?
Por que havia fumaça de churrasco
de shawarma sem música?
Outra explosão e outra e mais outra e ainda outra
E mais a adição se tornando multiplicação
O chão soluçava com dentes de pedra e poeira.
Lágrimas de pó de cimento vermelho
Ela viu o horizonte partir-se em fogo,
viu a noite perder as formas,
viu o terror entrar nos olhos da mãe
como lama escura invadindo o parquinho.
Então compreendeu em asfixia.
Os fogos desfigurando a História
E o céu nunca mais pareceu
Inocente.