Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)

Com um público de 40 mil pessoas e 100% de ocupação nos hotéis do centro histórico, a 24.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) terminou no domingo, 26, com um saldo positivo: a maior edição do evento. Ao longo de cinco dias, a cidade recebeu uma multidão de escritores e leitores ávidos para ouvir os principais nomes da literatura atual em 21 mesas principais e dezenas de eventos paralelos.

Foi uma Flip repleta de estrelas que atraíram filas imensas para a programação paralela, que ocorre nas casas parceiras da festa pelo centro histórico. A exceção na localização foi a filósofa e ativista Angela Davis, cuja participação precisou ser transferida para uma tenda com capacidade para 700 pessoas no Sesc Caborê, a cerca de 20 minutos de caminhada – certamente a mesa mais concorrida do evento.

Poucos conseguiram ver Angela, mas a disputa também foi enorme para escutar escritores como Conceição Evaristo, Carla Madeira, Socorro Acioli e o português Valter Hugo Mãe. Prova disso é que estes dois últimos encabeçaram a lista de autores mais vendidos na livraria oficial da Flip (operada pela Livraria da Travessa), logo à frente da homenageada desta edição, a poeta Orides Fontela (1940-1998).

Na sexta, 24, mesas que reuniam estes autores na Casa Caixa de Histórias, por exemplo, tinham filas que contornavam o quarteirão com cinco horas de antecedência. “Minha opinião é que está sendo muito difícil entrar nesses eventos tão grandes, mas é algo que nós já esperávamos”, disse Juliana Takeuchi, designer de 36 anos que conversou com o Estadão na fila para ver Angela Davis.

DESCOBERTAS. Ela e a amiga Lyssandra Leite, especialista de dados de 30 anos, tiveram sorte de conseguir ingressos para assistir à filósofa americana, mas contaram que aproveitaram mais a descoberta de novos autores em casas menores. Para quem não consegue encontrar seu escritor preferido, a possibilidade de descobrir novos livros continua sendo um dos atrativos da festa.

A força da programação paralela não parece ter atrapalhado o Programa Principal, que teve como maior convidada a escritora inglesa Zadie Smith. Com uma dezena de escritores nacionais e internacionais, a festa

A homenageada

Reverenciada pela 24.ª edição da Flip, a poeta Orides Fontela (1940-1998) ganha reedição de seu 5 livros pela editora Hedra

teve conversas bonitas, como a mesa que reuniu a alemã Carmen Stephan e o médico brasileiro Drauzio Varella, e a que juntou o guatemalteco Eduardo Halfon e a argentinobrasileira Paloma Vidal.

Foi proveitosa também a troca entre a angolano-portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida e o francês-argelino Kamel Daoud, além da participação virtual de Hisham Matar (ele sofreu um imprevisto e não pôde estar em Paraty), em conversa com o brasileiro Milton Hatoum, imortal da Academia Brasileira de Letras. Mesas individuais também fizeram sucesso: a da angolana Ana Paula Tavares, Prêmio Camões em 2025, e a da ministra Cármen Lúcia, que lotou o Auditório da Matriz.

PONTOS NEGATIVOS. Como nem tudo são flores, a Flip voltou a sofrer com falta de energia em uma das noites de evento, algo que não ocorria desde 2023. Na noite de quinta-feira, o centro histórico de Paraty ficou às escuras. Um “problema ambiental”, afirmou a Entidade Nacional de Energia Elétrica (Enel) na ocasião. A programação principal seguiu normalmente com a ajuda de um gerador e a energia só retornou de madrugada.

A Flip sofreu com cortes no orçamento desde a última edição, algo que a curadora Rita Palmeira atribuiu ao ano de Copa do Mundo e de eleições. Mas isso não ficou tão aparente, com exceção de alguns detalhes. Não havia, por exemplo, fones de tradução simultânea para o público que acompanhava as mesas no Telão da Praça; a voz do intérprete surgia direto no telão, sem a opção de escutar o autor em seu idioma original.

Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip, já havia dito anteriormente que os efeitos do corte foram maiores em outras ações que a organização realiza em Paraty ao longo do ano. Conforme divulgado pela Flip, o custo da festa neste ano foi de R$ 11,7 milhões, R$ 100 mil a mais do que o custo da edição passada. A captação por leis de incentivo, contudo, foi bem menor: R$ 3,35 milhões captados via Lei Rouanet até o momento, ante R$ 9 milhões em 2025.

No geral, a sensação foi de um evento bem-sucedido. As 40 mil pessoas que circularam por Paraty representaram um crescimento de 17,65% em relação à última edição, cujo público foi de 34 mil participantes. Esse número consolida a maior edição da festa literária em sua história.

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